15.3.12

Nostalgia

Dorothea Lange

Um vento de norte arrefeceu o passado
que nos resta e pôs em perigo a noite
que, desde a meninice, nos seduzia.
Há pássaros esmagados
entre os destroços de um desleixo,
onde, em lençóis de mágoa,
entornámos o vinho com que brindámos
a festa de nascer.
Como estava previsto, nenhum abrigo
nos devolveu o colo materno.
Um diário íntimo marginou os nossos hábitos
e revelou que somos, apenas, aprendizes
de uma esperança manipulada pela dor.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

8.3.12

Elas

Lempicka

Elas têm olhos de vespa como as antigas deusas
e mordem o freio que lhes sangrou os lábios.
Fazem minuciosamente o inventário dos sonhos
esmagados na lembrança.
As paredes das casas com marcas de fumo
guardaram-lhes os gritos quando queimaram
as cartas de amor e o alecrim para afastarem
os fantasmas do passado parados à beira da insónia.
Agora turva-se-lhes a água no quebranto das horas
que a vigilância dos relógios e dos homens
tornam fatigantes.
Às vezes ficam deitadas horas a fio no chão
de cimento afagando o dorso do gato
que febrilmente se enrosca em suas ancas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.3.12

O nevoeiro da espera colado nos sonhos


Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

23.2.12

À memória do Zeca


Passou por aqui um poeta: inquieto,
polémico, subversivo.
Com a noite entrincheirada nos dedos,
engatilhou as letras contra os lábios,
até acender, preso ao coração,
o lume das palavras.
Peregrino de memórias solidárias
saltou os muros do tempo em que viveu,
com pressa de estar entre os homens
no tempo da revolta.
Hoje as palavras pertencem-lhe,
intactas, por direito próprio,
humanamente adquirido.
O silêncio também.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

17.2.12

Ausências sem rosto

Magritte

Entre o culto da lua e um estranho ódio,
cresce uma noite de lendas e feitiços
e deflagra um luar íntimo
em busca da conivência do corpo
para embalar a nudez e o mênstruo das fadas
rompendo o céu da boca com o brilho dos olhos.
O deleite de muitas águas
atravessa ausências sem rosto,
enquanto uma nítida cumplicidade
converge sobre as mãos interditas
de quem envelhece longe do rio.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997 

10.2.12

Os olhos verdes


Para a  minha irmã Teresa Pires

Os olhos verdes  de meu pai
herdou-os a minha irmã.
Agora os panos dos veleiros
encharcam-se com as águas de sal
que lhe são travessia no olhar.

Graça Pires
A incidência da luz, 2011

3.2.12

Olhas para além dos barcos



Para o meu irmão Zé Pires

Instáveis como as sombras, as nuvens
perpassam o teu olhar carregado de melancolia.
Olhas para além dos barcos
e lembras o velho Santiago de Hemingway.
A dor não abate um homem, ele o dizia,
com as mãos escorrendo sangue
de tanto ser puxado pelo peixe
que o prendia ao mar.
Na continuidade dos remos,
todos os tons de azul envolviam
o mesmo horizonte de água, a mesma sede,
o mesmo silêncio, o mesmo sonho.

Graça Pires
2012

26.1.12

Procuro o teu rosto

António Quadros

Presa às marés, outras margens me circundam.
Procuro os teus braços.
Esgota-se em cada dia, lentamente,
a viagem do tempo que expõe a rigorosa
proa no vértice dos dias.
A densidade do sal partiu-me os remos
e entranhou-se-me nas veias como um tormento.
Tenho um barco parado a obstruir-me os lábios
colados à rugosidade dos mastros.
Procuro o teu rosto.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

19.1.12

MÃE!


Tanto tempo que eu passei sem aqui vir
disseste, mãe, quando notaste
como era imenso o azul do mar.
Teus olhos carregados de ausência.
Tuas mãos tremendo de tanto vagar.
Teu corpo aquietado de tanta canseira.

Graça Pires

De A incidência da luz, 2011

12.1.12

Tudo se passou naquele inverno



Tudo se passou naquele inverno
em que caiu a figueira junto ao muro.
As oliveiras escondiam entre as folhas
alguns aromas da tarde que o alecrim
teimava em espalhar.
Um estranho silêncio ensurdeceu
as mulheres que se fecharam nos quartos
para sufocarem os gritos.
Deslizava-nos pela cara uma forma
de tristeza que nos inundou a boca.
Uma luz ensombrecida
alongou a treva em nossos olhos.
Entrámos em casa com cuidado
para que a noite não se esgueirasse
pela assimetria das janelas.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

5.1.12

Como um lamento

Ana Pires

Tento esboçar o tamanho da lua cheia
no vértice das empenas viradas a nascente.
Tento calcular a geometria do mar
que bate nos limites do molhe
como um lamento adivinhado.
Tento seguir as pombas que invadem as cidades
com rumores de solidão colados nas asas.
Trago a enfeitar-me o decote pérolas de areia e sal.
A surpreendente claridade das águas
lava meus olhos da sugestão de tormenta
que guardo por hábito sobre o rosto.


Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

29.12.11

Regressamos aos lugares da infância

Dorothea Lange

Mais do que uma voz, a vibração de um trompete
exila o pranto inesperado do olhar preso
à curva do sol nascente.
Regressamos em sobressalto aos lugares da infância.
Colhemos azedas roçando nos lábios o suco
que a língua suga com um prazer inexplicável,
iludindo em nossas bocas outros sabores.
Temos ao alcance das mãos o arco matinal do riso
e vivemos em litorais que nos douram o corpo,
poroso a todas as paixões.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

19.12.11

A estrela de Natal


Foi um sonho que tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga
In: Diário I

Um Natal com Amor e Luz e um Ano de 2012 com Saúde e Paz.

9.12.11

Amo as açucenas


Amo as açucenas na branquíssima
vertigem do princípio do mundo.
Ninguém pode amá-las assim
nas madrugadas de linho e de nácar.
Ninguém subiu as vertentes da colina
mais íngreme com um vestido de noiva
amarrado ao corpo.
O abandono recortado no ar.
Os desejos entorpecidos na alvura dos seios.
Os guizos das cabras reclamando o cio.
A cera das colmeias na greta dos lábios.
O fascínio da luz a incidir nas hastes mais altas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.12.11

Aloés



De dezembro a fevereiro os aloés
florescem à beira das estradas.
Têm hastes longas presas aos cactos.
Cleópatra, dizem, utilizava-os para dar à pele
a beleza macia que entontecia os homens.
É por isso que nos fascina a sua cor
fortemente igual às laranjas antigas.
É por isso que há mulheres rendidas
aos poderes dos bálsamos obtidos das flores.
É por isso que se acredita na minuciosa
utilidade de lhes extrair o sumo,
o tónico, o gel e tantas outras coisas
que prometem a juventude eterna.
Como se não fossem perversos
os desígnios da morte.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

22.11.11

A que país pertenço?

Robert Coombs

Acordo nos degraus de novembro
e volto a ser menina.
É o dia dos meus anos.
Ponho um vestido cor de rosa
e um laço de cetim a prender as tranças.
Tenho uma boneca de papelão
com covinhas no nariz.
Há arroz doce para o lanche,
com o meu nome desenhado a canela.
Mas já não sei o caminho
para o sótão da memória.
Ando devagar pelo pátio
das recordações. A que país pertenço?
Já não choro uma pátria de bandeiras,
nem rastejo os vocábulos
pelo subterrâneo das traições.
Tenho uma lança de pedra
no contorno da cintura
para chegar ao âmago do medo
e saber como é inevitável
um jogo de luzes nos olhos da noite.
Sobre o meu peito aberto, as aves
bebem nuvens num contorno de fábulas.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

14.11.11

Memórias de Dulcineia XXII

Trémula, ajusto à mão
a posse das palavras
e conto:
Numa aldeia da Mancha
um homem recuperou a razão
e começou a morrer.
Banido de seus sonhos,
as sombras da tristeza
devolveram-lhe o nome
e o rosto que eram dele.
Aos poucos, o seu corpo
tornou-se circular
e fundiu-se com as velas brancas
de um moinho de vento,
que continua a girar
numa aldeia da Mancha,
de cujo nome não me lembro.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

7.11.11

Em tons de azul

Matisse

Recolho-me no interior azulado
das imagens que atravessaram os teus olhos.
Podem ser as figuras femininas de Matisse
em recortes de guache.
Pode ser o ramo de miosótis
que ajeitei na jarra pela manhã.
Pode ser o filme de Kieslowski
celebrando a liberdade da vida.
Pode ser um pássaro, uma pedra,
um papel, uma blusa.
Pode ser esta luz, quase um rio,
tão frágil em meus olhos, quando as palavras
ardem como chagas de fogo na lembrança.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

31.10.11

Nas noites excessivas

Ana Pires

Para poderem atenuar a cruel inclinação
das sombras nos alpendres, quando os pátios
virados a sul manobram a direcção dos ventos,
elas partem os vidros de todas as janelas,
como se soubessem o caminho da morte
nas noites excessivas.
E abrem os olhos à lâmina da cegueira
para que os espelhos atravessem a nitidez
da voz enrouquecida de tanta mudez.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

21.10.11

A febre das uvas a morder-nos a língua


Dos montes inclinados à sedução das vinhas
apenas sabemos a linguagem das brisas
e o voo absolutamente breve dos insectos.
Ninguém suspeita que a inevitabilidade do sol
é um aviso à transparência dos frutos:
a febre das uvas a morder-nos a língua.

As mulheres com gestos fatigados
desenham nos lençóis a crueldade
de certos sonhos tão sobressaltados
como o choro incessante dos filhos.
Suas vozes sufocando na nitidez da noite.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

14.10.11

O outono que nos coube

Dorothea Lange


Deixo que um veludo roxo
me toque as sobrancelhas
devagar, para descobrir
uma terra sem nome,
onde repito vezes sem conta
a noite perturbante em que soube
pela primeira vez que as lágrimas
dos velhos são cristais de quebranto,
lapidados na secura da garganta.
Se não fosse este país de medos,
estaria intacto o sossego dos mortos.
É preciso transformar o desalento
em cavalos à solta, neste destino
de outono que nos coube.
Tudo raso de esquecimento.
Tudo distante de amor.
Memória da lenha e do fumo
por dentro do lume.
Uma espécie de fogo posto
ondula nos meus braços
Não hesito em arrombar todos os gestos
e suspender a tristeza, na cadência da noite.
Não falo. É outono: lugar calado.
Espero só a explosão das novas cores do vento
dentro das minhas mãos, para romper o nevoeiro
de todas as paisagens líquidas.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

7.10.11

Cor negra

Edouard Manet

Manet cultivou a paixão pela cor negra
e com ela pintou os casacos dos homens
e adornou o pescoço das mulheres.
Como se aprisionasse o tumulto das cores
na intimidade da tela.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

30.9.11

Tango

Pedro Alvarez


Coloco sobre o corpo um vestido vermelho
com peitilho de renda e digo tango.
O duelo das pernas: corças descomandadas
no ventre das chamas.
Repito tango.
O bandoneón de Astor Piazzola deixando na carne,
em desalinho, os gemidos da posse.
Ai, os lençóis do estio no suor da febre!
Ai, o mastro mais alto exasperando as águas!
Volto a dizer tango como quem esgota
o vinho novo na euforia da sede.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

23.9.11

Outono

Ana Pires

Alheia à continuidade das manhãs
fixo um encontro comigo
para a hora em que a terra se deixa amar sem cólera.
Tudo converge no sombreado das árvores
chorando as folhas.
Sento-me na esplanada dos prodígios
e abro um bloco pautado
para fixar a voz daqueles que ninguém ouve.
Ao mesmo tempo, apanho do chão
as memórias desta cidade
onde todos os sinais de vida
se conjugam com o verbo esperar
e todos os odores são uma mistura de fumo,
de fadiga, de suor e de solidão.
Tudo se passa, simultaneamente,
como uma despedida e um reencontro.


Graça Pires
De Outono:lugar frágil,1994

16.9.11

Ortografia do olhar

Salvador Dali

Os barcos aproximam-se do quotidiano,
pelos atalhos da luz, no corpo da tarde.
Ao mesmo tempo, de cidade em cidade,
uma inquietante treva incendeia, noite adentro,
o ruído mitológico das maresias de outono.
Um navegante sem bússola

enforca-se no cais dos percursos para sul,
como se rastejasse a paisagem dos sonhos,
pelo lado mais escarpado da alma.
Ritual de sangue inadiável.
Rotas afogadas nas pálpebras.
Quilha de silêncio onde ficamos exilados e cúmplices,
reassumindo não sei que espanto,
enconchando o coração para nele caber
o estremecimento intacto de um rio.
A brisa, de feição, justificará o lentíssimo
tumulto dos remos junto à foz.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

Minhas Amigas e meus Amigos, faz hoje 5 anos que iniciei o meu blogue "Ortografia do olhar" exactamente assim: com esta imagem e este poema. Fiz muitas amizades e a todos agradeço o carinho que me demonstraram.
Não vou fechar o blogue. Continuarei a publicar os poemas, mas por falta de tempo fecharei a caixa de comentários, pois não acho justo não poder responder às vossas agradáveis mensagens. Espero que continuem a ser meus leitores e meus amigos. Se eu puder ser útil a alguém o meu endereço electrónico é o seguinte:
gracampires@hotmail.com

8.9.11

Em seara alheia





no princípio, somos esta luz queimada de água a água,


o fogo ininterrupto que se alastra na comunhão das margens,
a maré vazia, a mágoa calcinada, a imagem breve da castidade,
trabalhada pela pluma do céu com seu botão de rosa sobre o mar.
no princípio , estamos sóbrios, ignoramos o abismo caminhamos nus,
e se uma música nos toca, encostamos toda a nossa vida um ao outro,
e a luz faz, no chão onde dançamos, as efémeras sombras de uma chama,
que, de hoje para sempre, arderá no mundo à nossa passagem. e temos à
nossa espera, no fim de tudo isto, o medo com os nossos olhos na cara, e,
entre eles, a mesma água que queimou este poema, mas abaixo os braços leves,
convidativos, apetece cair nestes braços e concluir, num só corpo o verbo amar.

Alice Macedo Campos
In: a mulher sus.pensa. Porto. edita-Me,  2011

31.8.11

Ainda assim


As abelhas coladas à cal dos muros
pela violência da luz
tornam impossível a essência das colmeias.
Ainda assim as mulheres
lambem os favos
que enchem de prodígios suas bocas.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

24.8.11

Um espesso pó nos aguarda

Walker Evans

Um espesso pó nos aguarda.
Por isso transformamos a ombreira
da porta num braço de mar.
O soalho de madeira faz da casa um navio
onde as ondas iludem a errância do casco
e a geometria das tábuas repete
a simétrica dimensão dos mastros.
Um remo parado significa uma espera
ou a irremediável secura do olhar.
É então que percorremos a casa
e trancamos as portas para que o vento
não seque os olhos alagados
com que regamos o jardim.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

17.8.11

Qualquer gesto

Munch

Era quase a manhã a sangrar nos pulsos.
Qualquer gesto seria inútil para entoar
todos os silêncios que enchem a noite.
Eu podia esperar à beira-mar o amanhecer
ou os amigos a quem a errância dos mastros
rodeia a garganta.
Podia adormecer sob as águas onde se escondem
as quilhas seduzidas pela voragem.
Podia, eu sei, abraçar os navios
ou ser a asa e o voo das aves solitárias.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009