19.8.12

Como um aviso


Pedro Pires

Quando as espigas surgiram de repente
nos sulcos das searas, sem que o braço e a foice
afagassem o trigo, houve homens
que se amarraram à terra aguardando que o corpo
se transformasse em campo lavrado.
Houve mulheres que cegaram, em plena
madrugada, perto dos pomares.
Houve meninos que se fecharam por dentro
dos segredos que as mães guardam no sangue.
Houve pássaros que suspenderam o voo
sobre as casas desertas. Como um aviso.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

12.8.12

Talvez o aroma dos lilases



Talvez este país deixe ver mais do que a sujidade
pegada aos prédios ou a agitação das pessoas
que regressam apressadas dos lugares
onde a intimidade as perturba
atravessando todas  as ruas
com o passo vacilante de quem foge.
Talvez a profusão aromática dos lilases
coloque em nosso olhar a sugestão de lugares
onde o vento procura as conchas
ou os barcos enterrados nas dunas,
alagando o recato da noite a quem conhece
o implacável desvio do sossego nas casas
expostas à solidão urbana.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

6.8.12

Em busca do bojador



 Para a Graça Neto, minha amiga de sempre

Os remos adormecem-te nas mãos, cansada
que estás de tanto remares sem destino certo.
Como se fora a única viagem,
contornas todas as falésias,
viajas de dia e de noite
em busca do bojador dos múltiplos desafios.
A tua errância tem perigos excessivos.
Mas não recuas. Pintas, todos os dias,
o casco do teu barco de outra cor.
E pensas: se eu morrer hão-de dizer de mim
que fui o marinheiro que perdeu as graças do mar.

Graça Pires

29.7.12

De seda



São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

22.7.12

Sílabas de som tenso

Ton Koene


Um exílio começa no ferrete dos lábios
queimando o ébano dos pianos
que fazem gemer o prelúdio das mãos.
A boca, com sílabas de som tenso,
inventa os murmúrios colados ao archote
das preces que esconjuram a morte.
É invisível, como o uivo dos lobos em noites imensas,
a tormenta que nos intimida
quando, sobre o chão, nenhuma luz cicatriza
a exactidão do tempo e, como náufragos,
nos deslumbramos com a proximidade do abismo.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

15.7.12

De muito longe



Conta-se que há laranjais que rebentam
ao pé dos poços deixando um aroma de pétalas
branquíssimas no bordo dos cântaros.
Todos os dias chegam ali mulheres
vindas de muito longe com punhais de luz
por dentro do olhar e um ramo de oliveira
entrelaçado nos dedos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

8.7.12

Somos a sombra de uma vara


De pé, demoradamente invocando
o grito do destino, somos a sombra
de uma vara, presa à inclinação do sol,
que define a vertigem que nos derruba
e que nos ergue.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

1.7.12

Como se esperasse ser salva

Katia Chausheva

É sobretudo ao anoitecer que ouço
exaustivamente o fado em vozes solitárias.
Deixo que um xaile negro me cubra os ombros
porque tenho a mente propícia aos perigos nocturnos
que me dobram os joelhos como se esperasse ser salva.
No estuque das paredes enviesadas do quarto
procuro uma tira de luz e não sei se nomeio o deserto
ou a ilha de basalto onde as aves ensurdecem
com a absoluta quietude das pedras.
Trago serpentes marinhas enroscadas no corpo
e o açoite do medo a ferir a tremura das mãos
que escondem anéis de ágata na perícia dos dedos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

24.6.12

Antes do homem havia a terra


Antes do homem havia a terra:
geografia mágica, sagrada
que,  na luz e na treva, explodiu
de espanto e guardou, milenarmente,
os mistérios da vida e da morte.
Depois da terra veio o homem.
E o homem tornou-se um morador incauto
e perdeu o paraíso onde agora os deuses,
quando passam, desviam o olhar.

Graça Pires
De: Uma vara de medir o sol, 2012

17.6.12

A cor convicta do poente



Quando a aurora começa a dissipar
as trevas  na palidez da terra
avançamos com a argúcia da palavra
sobre a imperfeição de cada instante.
Seguramos a lança das memórias.
Seus véus de renda deciframos.
Por sua farpa ateada as aceitamos.
A luxúria de seus gritos consentimos.
Para que nos seja assombro
a cor convicta do poente.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

10.6.12

Quase lágrimas

 Walker Evans

O viajante ajoelhou-se sobre a terra
e cantou e cantando rezou.
Carregava nos ombros o afluente de um rio
para o largar no longo chão das lavouras.
O pão ázimo lhe sufocava a fome.
A chuva lhe esquecia a sede.
Seu coração emudecia quando um denso 
nevoeiro (quase lágrimas) lhe gravava na boca
o clamor dos glaciares desmoronados.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

3.6.12

Enquanto abrigas nas mãos

István kerekes



Toco-te. Percorro-te.
Os dedos subitamente peregrinos
tangendo a matriz sensual da tua pele.
A pérgula das buganvílias de carmim
encobrindo a sombra mínima dos meus olhos
quando, a meia voz,
me falas do chamamento do corpo.
A navalha das palavras brilhando-te nos dentes
enquanto abrigas nas mãos a limpidez acesa
de teu rio nascente para ecoar
em minha fonte, em minha boca.

Graça Pires
De A Incidência da luz, 2011

27.5.12

Tão verdes as mãos com que agarrávamos o tempo

Ana Pires

Os rituais da infância não nos deixam esquecer:
Era verde a sombra das árvores no pátio da escola.
Eram verdes os trigais pejados de papoilas.
Eram verdes os pássaros que traziam um prado
colado ao voo rasante, nas tardes de verão.
E os rios tão verdes. Tão verdes as águas.
Tão verdes os peixes. Tão verdes os barcos invisíveis.
Tão verdes as mãos com que agarrávamos o tempo.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

16.5.12

CONVITE

11.5.12

Do meu país vos digo



Do meu país vos digo:
Dos aromas de urze e alfazema.
Dos caminhos de rosmaninho e alecrim.
Dos matizes, no verão,
rasando a terra sem sombra
e demandando os rituais
das uvas pisadas no lagar,
ou em bocas abertas à dádiva da colheita.
Do intenso tom de júbilo
que retorna em cada primavera
com a insondável melodia
dos jacarandás rondando as ruas
pela cercadura sombria dos arbustos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

5.5.12

Onde estás, Mãe?

Vieira da Silva

Defino geometrias na memória,
para reconstruir a casa onde nasci
e, apenas, a lenta urgência dos teus passos
ecoa dentro de mim, mãe.
O teu sorriso podia ser, agora, o prelúdio
de todas as sinfonias.
Adormeço no teu colo,
enquanto  as nuvens
se penduram nos meus punhos
e o anúncio de um grande amor
se insinua sobre a minha cabeça,
como um vórtice que me arrasta
para o centro de um maternal labirinto.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.4.12

A escassez do amor e do pão de cada dia

Dorothea Lange

                       Desconhecemos as cicatrizes das mãos
que manejaram a mó dos moinhos
e a fadiga das que mondaram a terra,
num ritual repetido infindavelmente.
Nada sabemos das mãos gretadas
pela acidez das resinas e do pó,
pela dureza da enxada e do arado.
Abandonadas há muito tempo,
as alfaias antigas ainda rangem
nas mãos dos que pisam os trilhos
das cabras em lugares desamparados.
São mãos onde se lê a escassez
do amor e do pão de cada dia.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

19.4.12

As palavras andam por aí

Sarah Afonso

As palavras penetram o espaço e o tempo.
Amadurecem em papel de seda,
manipulando a cor, ateando o silêncio,
incendiando as cinzas, anunciando a luz.
As palavras andam por aí
como se fosse a vez primeira:
solitariamente manejando a noite.
E desnudam-me. Dançam no meu corpo.
Cobrem-no de malícia.
Tatuam em minha testa o tom das tangerinas
para que o seu sumo me escorra pela cara até à boca.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

12.4.12

A túnica lilás

Sandro Botticelli


A túnica lilás desesperava-se de ser anjo
no meu corpo de criança.
Rasguei-a há muito tempo.
Os anjos não perdoam que lhes cobicem as asas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

5.4.12

Um requiem pelos sonhos

Manuel Fazenda Lourenço

Refazemos o tempo nocturno no mais escondido olhar
para que ninguém veja os passos em falso
com que trilhamos o destino.
Olhamos o carvão apagado, como se fosse possível
encontrar a noite debaixo da trempe
onde, no tempo antigo, se poisavam as panelas
e se procurava a promessa de um lugar à mesa.

Contra o silêncio lemos a meia voz: ponham laços
de crepe nos pescoços das pombas da cidade.
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas
de algodão. Voltamos a ler e as palavras de Auden
ecoam como um requiem pelos sonhos
profanados em mãos funestas.
Depois não sabemos como evitar o luto,
ou a culpa, ou a solidão.

Graça Pires
De A incidência da Luz, 2011

29.3.12

A vigília do olhar


Uma explosão sobrevoa a vigília do olhar
preso às pontas do vento.
Vejo da minha janela as labaredas da suspeita
galgando as árvores.
Redemoinham pelo chão as fagulhas
que arderam na cor dos gladíolos alaranjados
estremecendo as asas dos pássaros
no interior dos jardins quando, cúmplices,
teceram com seu voo a hesitação do poente.
É a hora em que os morcegos
andam às voltas procurando os ninhos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

21.3.12

A poesia não morreu

Pedro Pires

A minha impaciência não cabe no poema
ou na pedra afiada pelo silêncio
que me fere os pulsos.
Gravei a sangue o furor dos dias
e deixei rasgar em minha boca
os frutos da sede e do assombro.
Não me venham dizer
que precisamos de profetas
ou de heróis ou de sábios
para o mundo ser salvo.
Nós acreditamos que o brilho das manhãs
se arredonda nas arcadas do tempo
assediando o sonho fraterno dos poetas.
A poesia não morreu.
De memória em memória
ela atravessa as palavras
com a farpa da revolta.
É preciso gritar que a poesia não morreu?

Graça Pires

15.3.12

Nostalgia

Dorothea Lange

Um vento de norte arrefeceu o passado
que nos resta e pôs em perigo a noite
que, desde a meninice, nos seduzia.
Há pássaros esmagados
entre os destroços de um desleixo,
onde, em lençóis de mágoa,
entornámos o vinho com que brindámos
a festa de nascer.
Como estava previsto, nenhum abrigo
nos devolveu o colo materno.
Um diário íntimo marginou os nossos hábitos
e revelou que somos, apenas, aprendizes
de uma esperança manipulada pela dor.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

8.3.12

Elas

Lempicka

Elas têm olhos de vespa como as antigas deusas
e mordem o freio que lhes sangrou os lábios.
Fazem minuciosamente o inventário dos sonhos
esmagados na lembrança.
As paredes das casas com marcas de fumo
guardaram-lhes os gritos quando queimaram
as cartas de amor e o alecrim para afastarem
os fantasmas do passado parados à beira da insónia.
Agora turva-se-lhes a água no quebranto das horas
que a vigilância dos relógios e dos homens
tornam fatigantes.
Às vezes ficam deitadas horas a fio no chão
de cimento afagando o dorso do gato
que febrilmente se enrosca em suas ancas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.3.12

O nevoeiro da espera colado nos sonhos


Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

23.2.12

À memória do Zeca


Passou por aqui um poeta: inquieto,
polémico, subversivo.
Com a noite entrincheirada nos dedos,
engatilhou as letras contra os lábios,
até acender, preso ao coração,
o lume das palavras.
Peregrino de memórias solidárias
saltou os muros do tempo em que viveu,
com pressa de estar entre os homens
no tempo da revolta.
Hoje as palavras pertencem-lhe,
intactas, por direito próprio,
humanamente adquirido.
O silêncio também.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

17.2.12

Ausências sem rosto

Magritte

Entre o culto da lua e um estranho ódio,
cresce uma noite de lendas e feitiços
e deflagra um luar íntimo
em busca da conivência do corpo
para embalar a nudez e o mênstruo das fadas
rompendo o céu da boca com o brilho dos olhos.
O deleite de muitas águas
atravessa ausências sem rosto,
enquanto uma nítida cumplicidade
converge sobre as mãos interditas
de quem envelhece longe do rio.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997 

10.2.12

Os olhos verdes


Para a  minha irmã Teresa Pires

Os olhos verdes  de meu pai
herdou-os a minha irmã.
Agora os panos dos veleiros
encharcam-se com as águas de sal
que lhe são travessia no olhar.

Graça Pires
A incidência da luz, 2011

3.2.12

Olhas para além dos barcos



Para o meu irmão Zé Pires

Instáveis como as sombras, as nuvens
perpassam o teu olhar carregado de melancolia.
Olhas para além dos barcos
e lembras o velho Santiago de Hemingway.
A dor não abate um homem, ele o dizia,
com as mãos escorrendo sangue
de tanto ser puxado pelo peixe
que o prendia ao mar.
Na continuidade dos remos,
todos os tons de azul envolviam
o mesmo horizonte de água, a mesma sede,
o mesmo silêncio, o mesmo sonho.

Graça Pires
2012

26.1.12

Procuro o teu rosto

António Quadros

Presa às marés, outras margens me circundam.
Procuro os teus braços.
Esgota-se em cada dia, lentamente,
a viagem do tempo que expõe a rigorosa
proa no vértice dos dias.
A densidade do sal partiu-me os remos
e entranhou-se-me nas veias como um tormento.
Tenho um barco parado a obstruir-me os lábios
colados à rugosidade dos mastros.
Procuro o teu rosto.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011