16.11.20

A redenção de um abraço

Montserrat Gudiol

Para todas as pessoas que estão a sofrer e para todos aqueles que mitigam esse sofrimento

Um cheiro insólito espalha-se pelo mundo
como uma labareda ou uma intriga.
Receamos a rotação dos dias
com sua foice negra.
Cada minuto pode ser um golpe a ferir 
a flor do peito na respiração das manhãs.
De mãos lavadas acenamos de longe
àqueles que, perto do coração, nos acenam.
O céu parece abater-se  sobre a esperança
que renasce a cada hora
mesmo quando o poder das sombras 
nos sobressalta.
Queremos o alento da vida.
Sem luto. Sem iniquidade.
Na frágil redenção de um abraço.

Graça Pires, Nov. 2020

9.11.20

Amava a montanha desde que nasceu

Ansel Adams

Amava a montanha desde que nasceu. 
Amava-a tanto como se fora outra mãe 
que o protegia. 
Um dia em que dilatou o olhar para ocidente, 
entendeu com inexplicável rigor 
um motivo de evasão. 
E quando a neve 
era ainda mais branca nos seus olhos, 
seguiu o chamamento do mar 
na sede das raízes que o prendiam 
ao lugar que amava. 
Agora as gaivotas vêm morder-lhe na boca 
os frutos silvestres.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 27

2.11.20

Deambulou ao acaso

Olívia Marques

Deambulou ao acaso
soltando os fantasmas e os sonhos. 
Transpôs os espelhos quebrados, 
os muros caídos, as árvores já velhas. 
No desfile mágico dos mortos 
procurava pedro páramo, afirmava. 
Mas os caminhos extenuaram-lhe os pés 
e a sua boca inchou com o silêncio, 
com a poeira, com as ervas secas. 
Assombrado, rebolou o corpo 
pelo chão até ser trevo rasteiro.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 53

26.10.20

Em seara alheia


Dragão 
a Alcanhões, a minha terra 

Nasci guardado por um dragão antigo. 

Pedi-lhe que me ensinasse a extrair 
todas as profecias do futuro. 
E ele falou-me da seiva e das raízes, 
legado das oliveiras que herdei, 
e de como o azeite nunca cessou nas candeias 
ardendo no altar da minha casa. 

Perguntei-lhe se me cresceriam asas 
para seguir o curso dos rios 
e segurar a eternidade das estrelas. 

Mas não podendo voar 
nem cuspir o fogo que me ardia no peito 
bebi da água de todas as fontes 
para tocar a mesma luz que há nos astros. 

Samuel Pimenta 
In: Ascensão da água. Fafe: Labirinto, 2020, p. 42

19.10.20

Não é ficção nem simbologia

Adriano Miranda



Não é ficção nem simbologia. 
São homens sem abrigo, 
excluídos da luz, à espera 
de um mês propício para morrer. 
Em seus sonhos não há sol 
e possuem nos pés sem pátria 
todos os vestígios de fuga. 
A pele magoada de ardis 
tem o mesmo cheiro do rio na maré-vaza. 
Sobre os seus ombros apenas a noite: 
sempre tão húmida, sempre tão humilhante. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 52

12.10.20

Habitava aquele sítio por engano

                                                                 Richard Misrach 

Habitava aquele sítio por engano. 
Não era ali o lugar que procurara para viver. 
O que o fascinava era o deserto: 
a boca viciada pela sede, 
o vento ardido no olhar, 
a seiva dos cactos infiltrada nas veias. 
E, à distância da mão, a linha curva 
do poente a incendiar-se de estrelas. 
Em momentos da mais magoada solidão, 
saem de seus olhos tempestades de areia. 
Como se fosse um pranto. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 35

5.10.20

Não frequentou a escola

Adriano Miranda

Não frequentou a escola 
no tempo de criança que lhe coube. 
O trabalho instalou-se, desde sempre, 
na orfandade de suas mãos. 
Queimava alecrim para incensar 
a cal das paredes por onde gotejava 
a secura dos olhos. 
Um cansaço antigo a transformou 
em filha de si própria. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 25

28.9.20

Com as unhas fincadas no vaso de barro

Federica Erra

Com as unhas fincadas no vaso de barro 
onde crescem as sardinheiras brancas, 
ela rememorou alguns poemas 
escritos em folhas de plátano 
quando o outono, em seu percurso, 
as dispersava nos caminhos. 
Eram de amor as palavras que escrevia. 
Palavras de sedução, 
transparentes como a água. 
Resvalando sobre o nome 
que lhe conturbou o sangue. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 11

21.9.20

Não quis falar do vinho



Não quis falar do vinho 
entornado sobre a mesa. 
O bordado da toalha 
escondia enigmas 
que só as mãos das mulheres 
sabem decifrar no resgate 
de um meticuloso nomadismo.  
O jantar estava excelente, 
disseram seus amigos, 
voltando a encher os copos. 
Um rumor de vindimas 
propagou-se pela sala. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 40

14.9.20

Em seara alheia



Amo pelas manhãs o interior da casa 
a calma pousada sobre as coisas 
os objectos poucos 
ou da tua pele as adormecidas ruas 
poema e cidade teu corpo 
quando lá fora só o sol 
bronze longínquo 
e a tua voz como o som da água 
podem ouvir-se iniciando o ciclo do mundo e dos dias rentes 
onde ainda nada fora tocado 

E há em tudo um primordial desígnio de fruto 
porque tu estás 
onde começa cada ruído da casa 

José Pedro Leite 
In: A construção dos lábios. Ilustrações de Inês Cardoso Marques. Braga: Poética, 2020, p. 21

7.9.20

O estranho retorno de um espanto


O estranho retorno de um espanto 
aconteceu-lhe muitas vezes. 
Mas nunca como naquele dia 
em que a luz foi mais intensa 
nos seus olhos de criança. 
Avistou-o ao longe, o seu gato, 
companheiro de todas as tropelias, 
que ficara na quinta dos avós 
quando mudou para a cidade. 
Ninguém sabe como enfrentou 
tanto atalho, tanto quebranto, 
tantos perigos para chegar ali, 
ao sítio onde morava o menino. 
E ele, o menino, afogou a sua mágoa 
nas felinas tonalidades do olhar de um gato 
a quem chamava “bonitinho” e era dele. 

Graça Pires 
A solidão é como o vento, 2020, p.58

31.8.20

Apareceu como uma assombração

Dorothea Lange

Apareceu como uma assombração 
quase imperceptível no meio do inverno. 
Tinha deambulado pelas cidades, anónimo, 
com um saco a tiracolo cheio de raízes e de limos, 
de milho moído, de figos secos. 
Sabia agora como eram neutros,  
em sua vida, todos os silêncios de protesto. 
Queria falar até se tornar 
impronunciável o que dizia. 
Mas as palavras eram navalhas de barro 
que lhe asfixiavam a voz. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 14

24.8.20

Caminham por dentro do próprio desalento

Gregory Crewdson

Caminham por dentro do próprio desalento
com a memória exausta de pretéritos desejos. 
Já não sabem quem são. 
Dia após dia enfrentam a rejeição 
com o áspero calamento do olhar. 
Há golpes migrantes sulcando sua pele. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p.24

17.8.20

Em seara alheia


E VAI LENTO O NAVIO, enorme como os emblemas 
De um longo tempo nos cabelos do mar, 
E assumimos assim a composta melancolia, 
Em novelos de luz tão tocada, pedal azul. 
Vai lento como aquele insólito gigante 
Pedra grande, sentado na vigilância dos dias 
E o corpo em segredo, fantasia de continuar. 
Interrogamos a comissura dessas ilhas 
De que nos falaram em distantes rigores, 
A madeira do soneto, tão lento o navio. 
Tu dizes vou e não faz o mar que aqui havia 
Acaba o mês, os dias todos na pressa do brilho 
Sei baixinho aquele verso de que gostavas 
Para temporadas de silêncio, o teu peito.

Hugo Milhanas Machado
In: Estrela Tambor. Fafe: Labirinto, 2020, p. 36

10.8.20

Foi numa tarde de maio

Albino Moura


Foi numa tarde de maio que as fontes secaram.
 
O primeiro sinal foi dado pelas pombas 
que voavam espavoridas ao rés das janelas. 
Caladas, as mulheres esperaram a noite 
para se sangrarem como num parto. 
Por dentro dos sonhos dos homens 
escorregavam sequiosas serpentes 
que lhes sugavam as veias. 
Só as crianças, em perfeita nudez, 
espalharam o seu riso de água límpida 
e voaram sobre as casas como anjos.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 19


Se quiserem ouvir o poema podem fazê-lo aqui:
                       https://youtu.be/2Z20pDs1YMY 


27.7.20

Conta-se por aí

Maria Clarinda Galante

Conta-se por aí
que ele amava tanto as árvores
que tinha no coração
todas as tonalidades de verde.
O círculo das águas submersas
debandava o longe das nascentes
para adubar sementes e raízes.
Um inesperado cio,
bafo da terra em júbilo,
alojou-se-lhe no sangue.
Cinge, agora, nas mãos a luz de março
aguardando que o sobressalto
verde das folhas o sacie.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 51

Informo todas as minhas Amigas e todos os meus Amigos que voltarei a actualizar no dia 10 de Agosto. Tudo de bom para todos.

20.7.20

Nunca contou a ninguém

Magdalena Russocka


Nunca contou a ninguém
a quantos exílios se forçou
para encontrar a mudez propícia
à urdidura de acautelados gestos.
Vulneráveis, suas mãos
seguraram a pedra
que lhe afiava, no olhar,
todas as sombras que cindiam a luz.
E ela, pródiga de si,
a resgatar nascentes,
a deter revoltas à boca da fala,
a vigiar as cesuras de cada sonho,
a tecer infâncias no seu nome.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 33

13.7.20

Em seara alheia




Aguaceiros, que poderão ser de granizo

Entretanto mudou a hora, acrescentou-se luz 
e heresia  à lenta revelação dos dias maiores,
recomeçou o Verão antes de terminar a
Primavera e eu despi a respiração enquanto
consentias que as sombras das glicínias exalassem
o ofício nocturno das minhas sombras como a
única evidência de que os meus olhos se iam
apagando com versos alheios.

Tão depressa como chegou, esse promontório 
que era a contemplação imóvel e excessiva do
azul desapareceu. Regressou o inverno depois
de começar a Primavera e as previsões nada
escondem: aguaceiros, que poderão ser de 
granizo e acompanhados de trovoada, cobrem 
agora de espessura e transparência tudo o que
na escrita é composição mais terna ou mais
perfeita do amor.

Em desacerto com a chuva, que ora é íntima e 
me desnuda ora é distância e me reveste de sede,
entregue ao frio que só o estado sólido da realidade
não poética consegue provocar, dilacerado por
relâmpagos que iluminam e apagam confidências
em milésimos de segundos como se essa fosse a
duração da eternidade, assim existe e se demora
em mim o único lugar possível onde ainda te
procuro, como um beijo.

Sandra Costa
In: Boletim meteorológico. Volta d'Mar, 2020, p. 23

6.7.20

Naquela aldeia havia uma ribeira

Ossi Saarinen
 

Naquela aldeia havia uma ribeira
onde vinham beber os homens e os lobos.
O menino ficava por perto
à espera que eles
 – os homens e os lobos –
viessem beber nas suas mãos.
Em seu olhar cristalino
há ainda um brilho feroz
que desperta no seu peito
as aves da montanha.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 43

29.6.20

Lugar de junho

Minhas Amigas e meus Amigos, faz hoje 30 anos que foi editado o meu primeiro livro 
"Poemas", ao qual pertence este "Lugar de Junho".

António Cruz

 

É melhor não dormirmos
sob o árido labirinto da tristeza.
À nossa frente existe um pórtico
purificado por uma névoa de sons.
Vamos transgredir o limiar do absurdo,
porque encontrámos um abrigo musical,
onde ninguém pode separar das nossas bocas
o percurso das águas outonais.
É verde o germe do sol nos nossos olhos
e, sem querer, a sombra de um pretexto
emerge do assombro de nós próprios
como um regresso plural da inocência.
Estamos num lugar de Junho
e qualquer sinal de ausência
pode ser apenas um veleiro
que partiu dos nossos dedos.


Graça Pires
De Poemas, 1990, p. 53

Se quiserem ouvir o poema podem fazê-lo aqui:

https://youtu.be/50PkaANZstw
                                                


22.6.20

Jovem ruiva com vestido de noite

Amedeo Modigliani


Um incêndio atraiu
os meus cabelos em desalinho.
Emaranhou-os em estrelas luzentes,
porque vou ao teu encontro.

“O verão começa nos teus braços nus”, 
me dirás, na margem mais proibida da noite.

Ai, o rubor do rosto a desvendar
a secreta inocência dos devaneios!
Ai, o lento bailado nas sombras
da madrugada!
Ai, o mel e o néctar na seda de meus seios!

 “O verão começa nos teus braços nus”,
repetirás pela manhã.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 31

15.6.20

Para o meu filho Pedro

Elaborado pelo meu irmão José Pires

8.6.20

Doía-lhe na voz

Daniela Owergoor


Doía-lhe na voz
a crueza das palavras
como se fosse um poeta
sôfrego de silêncio.
Com olhos alagados de tristeza
perdia-se no espaço
mais íngreme das vagas
quando a sombra dos barcos
acostava no seu corpo
até se transformar em tempestade.
Num rodeio de vento sobre as dunas
achou o seu exílio.
As gaivotas começaram a amar-lhe
a fragilidade das mãos.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 7 

Se alguém quiser ouvir o poema pode fazê-lo aqui
https://www.youtube.com/watch?v=4umDyqwFCYw

1.6.20

Menina de azul

Amedeo Modigliani


Em todos os relógios
da cidade, os ponteiros
marcam a hora
inesperada da inocência.
Tudo parece perfeito,
Excepto o meu rosto
de menina, asfixiado
na moldura do tempo.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 13

25.5.20

Em seara alheia


30.

Não tens outro destino que não o mar 

da lusitana terra portuguesa 
teu berço de sangue e tua onda 
azul de espuma à tua mesa. 
Não tens outro remo outro navio 
outro porto outra casa outra corrente 
que a raiz de avós e o sangue antigo 
a correr-te na veia efervescente. 
Não tens outra manhã aberta sobre o peito 
quando a semente é veramente mater 
quando o céu cobre o ardor do corpo 
e as mãos afagam o pulsar do coração. 
Não tens outro destino, não, 
que o mar é uma canção de moinhos sobre as dunas 
afagando a água onde regressas.

Isabel Fidalgo
In: Sou viagem. Braga: Poética Edições, 2020, p.40

16.5.20

Um homem morreu sem ver o mar

Anne-Sophie Gilloen



Um homem morreu sem ver o mar.
Agora na sua aldeia
os barcos sobrevoam as casas.
Os meninos vestem-se de marinheiros
à espera que qualquer barco
encalhe à sua porta.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 37

7.5.20

Para aminha filha Ana

Elaborado pelo meu irmão José Pires

2.5.20

De cabeça baixa

Monia Merlo


De cabeça baixa, carregada de nevoeiro
como árvores no rigor do frio, ela ouvia
os sinos ao longe e recordava
aquela dor antiga, a mesma que sentira
na hora desalentada da morte da mãe.
Desde então as violetas brancas
emurchecem sempre que as amanha
com as mãos trementes e geladas.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 34

25.4.20

As minhas mãos se dão



Aqui, onde o coração reclama uma pátria melhor,
volto ao lugar das palavras que nunca calei,
por saber que o silêncio se articula na errância
da voz e que nele cabe a solidária multidão
que ama, por inteiro, a liberdade.
A boca sabe-me, inesperadamente, a sangue,
em nome daqueles que desistiram do sonho,
sem remorsos, à margem da esperança.
Tardei a encontrar o exótico perfume,
com que alucinei os dias e as noites,
onde, de um trago só, bebi a própria sede,
guardada no barro da memória.
Agora, sou dos que medem o desassossego
dos lábios, pelo silente sobrevoar dos pássaros,
rente à coragem ou às lágrimas.
As minhas mãos se dão, com a inquieta força
de quem vive ancorado ao fascínio de ter no olhar
um horizonte tão livre, tão límpido,
como a luz transfigurada das manhãs.

Graça Pires

20.4.20

Em seara alheia





Já isolei o coração. Lavei os olhos

com sal até sangrar toda a doçura.

Coloquei as mãos numa gaveta de silêncio.

As lágrimas estão em confinamento desde

o primeiro dia. Adiei o medo para quando

necessário.  Adiei tudo o resto, na verdade.

Vestidos novos, beijos, viagens e poemas.

Adiei até os filhos. O amor pelo amor.

Entretanto, nas legendas de um filme

leio que a esperança é uma coisa

perigosa. E no entanto, digo,

no entanto há concertos nas varandas

e gestos novos nascidos como planetas

antes desconhecidos. E no entanto

há rosas desenhadas nos nossos rostos.

Feridos, os nossos rostos, ardendo de dor.

E no entanto, é o abraço das cicatrizes

Que nos salva.



Virgínia do Carmo, 2020

Lido pela autora no sarau poético, no dia 7 de Abril, dia Mundial da Saúde, em homenagem a todos os profissionais de saúde que, com enorme sacrifício estão na linha da frente deste combate que a todos assombra.


13.4.20

Do meu país vos digo


Do meu país vos digo:
Dos aromas de urze e alfazema.
Dos caminhos de rosmaninho e alecrim.
Dos matizes, no verão,
rasando a terra sem sombra
e demandando os rituais
das uvas pisadas no lagar,
ou em bocas abertas à dádiva da colheita.
Do intenso tom de júbilo
que retorna em cada primavera
com a insondável melodia
dos jacarandás rondando as ruas
pela cercadura sombria dos arbustos.

Graça Pires
De A incidência da luz, p. 47

6.4.20

Um requiem pelos sonhos

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Refazemos o tempo nocturno no mais escondido olhar
para que ninguém veja os passos em falso
com que trilhamos o destino.
Olhamos o carvão apagado, como se fosse possível
encontrar a noite debaixo da trempe
onde, no tempo antigo, se poisavam as panelas
e se procurava a promessa de um lugar à mesa.

Contra o silêncio lemos a meia voz: ponham laços
de crepe nos pescoços das pombas da cidade.
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas
de algodão. Voltamos a ler e as palavras de Auden
ecoam como um requiem pelos sonhos
profanados em mãos funestas.
Depois não sabemos como evitar o luto,
ou a culpa, ou a solidão.

Graça Pires
De A incidência da Luz, p. 13

30.3.20

Um surdo alvoroço




Francesca Woodman

Envelhecemos com uma vara
de medir o sol na linha do olhar.
Não entendemos os sinais inscritos
nas margens do abismo.
Nem os bosques onde se abrigam
as sombras e a chuva.
Nem a misteriosa relação dos astros
no lado mais silencioso dos céus.
Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem
quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros
é tão nítido como o sopro do medo que transtorna
a leve inclinação das planícies.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 59

23.3.20

Em seara alheia


À DERIVA

O mundo é essa nau em desgoverno
que insisto em prender
em minhas mãos inábeis
como aqueles barcos de papel
que eu lançava na enxurrada
e interceptava na esquina
antes de adernar no córrego sujo

Não, eu não pude com seu
pesado trajeto
sendo arrastado na correnteza febril
da realidade e dos exílios

É esse objeto sem tamanho e sem rumo
que não cabe nos meus olhos
nem conhece o rosto da minha amada,

de onde emergem as perguntas
que nunca saberei responder

Endereço onde moram
todos os abismos

Ronaldo Cagiano
In: O mundo sem explicação, Lisboa: coisas de Ler, 2019, p.52