Um homem dorme nas arestas do frio,
os ossos apoiados na lembrança
de um verão abrasador.
Eis o sono do homem
que percorreu os mares e regressou.
Nos olhos o esplendor da verdura das ilhas.
As mão em leque na explicação das aves.
Parava em Maio a ouvir o eco
dos trovões pelas esferas.
Sentou-se amarrotado
nos degraus cor de cinza da pobreza.
Era quando cantava
com a voz doente do remorso.
Cansou-se da viagem
e abandonou o mar
e demandou o porto.
Chorou ao tactear o gume da cidade.
Ensurdeceu, que a música era grito.
Guardou no bolso a aspereza do dia.
Adormeceu obedecendo à noite.
Sonhou que era um navio e navegava.
Sem avistar a costa, navegava.
Licínia Quitério
In: A decadência das falésias. Lisboa: Poética, 2022, p. 26




.jpg)




.jpg)
.jpg)





.jpg)
.jpg)
.jpg)
