Escrevo com uma mulher
a correr-me nua por dentro das veias. Procuro-a
com o sangue em delírio e uma rosa de tinta
no desalinho do peito. Escrevo
a sua sombra radiante. Abro livros e encontro-a
por todas as páginas e digo: eis o poema, eis a luz
refratada de um rosto, eis o orvalho mais puro.
E os livros fecham-se e ardem e eu pergunto:
como pode a água arder assim.
E fico preso nos longos cabelos da mulher
e é como se ficasse repentinamente extasiado
no átrio de uma casa muito bela enquanto
as portas de fecham num rumor que não se ouve.
[...]
Escrevo uma mulher nua por entre a erva alta
de um lugar abandonado. E digo:
tenho sede, ó mulher por entre tanto orvalho.
E os teus olhos tocam levemente os meus lábios
e os meus lábios ardem à luz da água cristalina
e oscilam os teus seios como sinos quase imóveis
e roda uma roda de tinta na cruz do peito
e o teu ventre é felino como uma duna dourada
a estender-se para lá da maré mais alta.
[...]
Rui Miguel Fragas
In: A rebentação das águas. Braga: Poética, 2021, excertos das páginas 43-44